Haze: O Puro Néctar da “Bad Trip”

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Haze (PS3)

[Originalmente publicado no FinalBoss]

O estúdio inglês Free Radical Design criou uma boa reputação como produtora de jogos de tiro em primeira pessoa; não contente em contar com talentos egressos da Rare e envolvidos na produção de GoldenEye 64, sua franquia TimeSplitters esbanjava humor, boa jogabilidade e uma experiência multiplayer local bastante divertida. Mesmo a incursão mais séria fora do meio FPS (Second Sight, um game de ação em terceira pessoa) obteve boa recepção de crítico e pública, mesmo que não tanto quanto TS. Com a chegada da atual geração de consoles, fãs da empresa ficaram curiosos com seu primeiro projeto — e após rumores de exclusividades indo e vindo, eis que Haze tornou-se um exclusivo ao PlayStation 3. Infelizmente, este é mais um daqueles games a serem arquivados sob a categoria “de boas intenções, o Inferno está cheio”. Confiram nossa análise deste game publicado pela Ubisoft e entendam a razão por trás de uma série de críticas negativas — levando até mesmo a um grupo de jogadores mais engraçadinhos a organizarem um abaixo-assinado pedindo que o game se mantenha exclusivo ao console da Sony…

Justiça seja feita: ambientada em um conflito em 2048, até que a trama de Haze começa interessante. O jogador controla Shane Carpenter, um dos soldados contratados pelo conglomerado Mantel Global Industries. A realização mais expressiva da empresa é uma substância química apelidada de Nectar, usada pelos soldados no meio da batalha para melhorar o rendimento na linha de frente: os usuários têm seus sentidos aguçados, recuperam sua energia mais rápido e ficam mais fortes. A primeira missão de Carpenter e sua equipe é na América do Sul: eles deverão encontrar e capturar o ditador Gabriel “Skin Coat'” Merino. Acusado de crimes contra a humanidade, Merino é o líder da facção terrorista The Promise Hand (A Mão da Promessa)… e nem precisava ver o verso da caixa do game para sacar que alguma coisa não cheirava muito bem no reino da Mantel.

Se as telas de carregamento do jogo — repletas de texto de propaganda da Mantel, como se fossem os donos da verdade — não fossem dica o suficiente, há uma hora em que o sistema de adminstração da substância começa a falhar na armadura de Carpenter, e tome bad trip: as cores do mundo mudam, o jogador começa a ouvir vozes, e vê suas próprias mãos manchadas de sangue. Passado um tempo, o Shane é confrontado com a realidade e vê que a Mantel fabricou toda a história para seus próprios fins, e a Promise Hand só está lá porque começaram a lidar com invasões do exército particular da indústria. Eventualmente, o jogador é considerado um traidor por seus contratantes, é convertido à causa dos rebeldes e pretende botar um fim a conspiração.

O esquema de controle é o bom e velho duplo analógico para FPS, com zoom, armas explosivas e coronhadas. A diferença está no uso do Nectar, que deve ser usado com parcimônia — não em quantidade de usos, mas sim na dosagem: se o jogador apertar por tempo demais, ele overdosará e perderá o controle, atirando em amigos e inimigos sem distingui-los. Em compensação, um golpe com a arma derrubará seu inimigo de primeira, sem contar que os hostis são vistos com um brilho diferente. Até aí beleza, você está feliz por ser um supersoldado na missão para o bem maior… no entanto, após uma série de falhas na armadura e no sistema do Nectar, fica claro ao jogador que o Nectar oculta e maquia a realidade: tudo parece perfeito e intocado aos usuários.

Ao não ter mais o equipamento dos soldados Mantel — vendo seus ex-parceiros de equipe com uma aparência terrível, abatidos e com feridas na pele, como viciados em drogas pesadas — o jogador é obrigado a simplesmente se virar com o que tem: junto aos rebeldes, o jogador aprende a converter a munição inimiga para suas armas — e isso se faz bem necessário, pois você está em desvantagem em se tratando de equipamento; roubar os injetores de Nectar dos inimigos derrubados para fazer granadas que levantam uma nuvem da substância, overdosando os inimigos; plantar granadas no chão como armadilhas; até mesmo se fingir de morto ao ser acertado (é, os soldados sob o efeito do Nectar simplesmente não conseguem discernir se estão fingindo ou não). Esta última função requer que o jogador aperte o botão no timing certo para levantar e voltar à ação mais rápido, tendo a ver com o foco da visão do herói.

Além disto, o game também apresenta seqüências de veículos — variando em tamanhos e tipos, de ATVs a encouraçados — mas o controle e as fases onde isto acontece são meio safadas, requerendo um misto de previsão do futuro e habilidade de lidar com surpresinhas ruins. Prepare-se voltar do mesmo checkpoint várias vezes… Enfim, o modo campanha pode ser vencido em aproximadamente 8 horas, mas os jogadores mais dedicados poderão tentar de novo no nível Extra Hard, destrancado ao zerar o game. Outros chamarizes para a longevidade do game são o modo cooperativo para a campanha e alguns modos multiplayer — incluindo um onde o jogador começa como um refém de mãos atadas, e que precisa alcançar um entreposto com um rádio para chamar o resgate, livrar-se das amarras com uma faca enquanto enfrenta outros jogadores armados, aplicando-se as regras do modo single e as características dos soldados movidos a Nectar e os rebeldes.

O departamento gráfico de Haze é, basicamente, uma piada sem graça. Tirando uns efeitos de distorção relacionados ao uso do Nectar — e mesmo assim, com muita boa vontade — o jogo não é nem um pouco representativo do que uma empresa do calibre da Free Radical poderia fazer no PlayStation 3. Há uma série de irregularidades flagrantes no visual: os cenários são pouquíssimo inspirados (sério, não é nada que não tenha sido feito melhor em outros sistemas), os modelos humanos são feiosos (em momentos, a pele parece de massinha de modelar) e o trabalho de textura é risível (um dos maiores exemplos disto é o logo da Mantel no helicóptero: em duas cenas da mesma seqüência, a textura aparece na mesma situação em qualidades visuais diferentes). O uso da câmera de primeira pessoa é usado bem, com mãos e pés ao descer escadas, mas novamente… boas idéias de cinematografia, mas execução muito esquisita. O design de personagem, mesmo se referencial, é bacana; pena que a parte técnica não acompanhou tão bem quanto deveria. Na parte sonora, a trilha musical funciona, mesmo que não seja nada de muito memorável. A dublagem é tão canastrona quanto deveria ser, com os papinhos carregados de testosterona dos soldados, frases de efeito e referências esquisitas aqui e ali. Tipo, não dá para não ficar pasmo com um game que consegue citar Aliens: O Resgate — mesmo que não haja um alienígena do cenário, e a frase usada (“eles estão saindo das malditas paredes!!”, também citada em TimeSplitters) não faça o menor sentido no contexto — e “Ice Ice Baby”, aquele rap de branquelo do Vanilla Ice.

Como vocês já devem ter notado, Haze é um festival de erros. Apesar de boas sacadas de trama (como um dos principais efeitos do Nectar é “maquiar” a realidade triste, questionar a validez da guerra e o respeito pelo homem), o jogo emplaca muito menos do que poderia, porque a jogabilidade simplesmente não é grande coisa, e tem uma série de deslizes. Às vezes, seus parceiros de time simplesmente ficam zanzando na sua frente em meio ao tiroteio… e como o fogo amigo funciona, eles atrapalham bastante, principalmente em áreas fechadas. Outra cena dantesca foi uma perseguição de veículos na praia envolvendo os inimigos em um encouraçado, e você em uma ATV… onde a melhor solução é subir pelo cenário mal e porcamente para fazer seus perseguidores tentarem exatamente a mesma ação, mas baterem de frente e morrerem — e não, não era algo justificável pelo que estava em volta. Por fim, também é digno de nota dizer que mesmo que todos os cartazes das vilas estarem em espanhol, o refúgio dos terroristas se chama “Cidade de Deus” (em Português, com direito a construção remetente às favelas brasileiras, e não necessariamente a região carioca imortalizada no filme de 2002). Será que o Brasil foi invadido por outro país de língua espanhola antes de 2048? Por via das dúvidas, é melhor ir preparando as malas desde já!

Se depender de Haze, a Free Radical está dando motivo de sobra para seus fãs se preocuparem. Mesmo que referencial, o game tem algumas idéias bem bacanas de trama e jogabilidade — mas a execução está muito, muito aquém do que deveria. Não é como se a empresa não soubesse fazer um jogo de tom mais sério (Second Sight é um bom exemplo), mas fica difícil ignorar vacilos como inteligência artificial ruim, gráficos muito abaixo do que se esperaria de um título desta empresa para o PlayStation 3 — que diabos, dá para dizer que não é nada que outro sistema não faça. Mesmo assim, se o jogador for um fã mais inveterado de FPS e / ou tiver presença de espírito o suficiente para peneirar todos estes erros e se deixar levar pela trama, de repente vale uma alugada… Haze não é realmente ruim de jogar; só é mal executado, não traz absolutamente nada de novo à mesa, e nem faz melhor que outros títulos no mercado. Cadê o abaixo-assinado do “Movimento Volta Logo TimeSplitters , mesmo?

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